O nascimento de um beb causa um forte impacto no irmo primognito, que tem de aprender a partilhar a ateno dos pais, da qual, at ento, usufrua com exclusividade. importante que os pais identifiquem precocemente o problema e actuem de forma a dar criana a segurana afectiva que ela precisa. A integrao da criana nos preparativos e nas rotinas do recm-nascido um meio mais eficaz de reprimir o cime, j que ela se sente importante e necessria nessas tarefas.

J em 1920, Freud sublinhava que “no h provavelmente nenhuma casa sem conflitos violentos entre os seus habitantes mais pequenos, seja pela rivalidade, pelo amor dos pais, competio por objectos comuns, ou mesmo pelo espao fsico do lugar que ocupam”.

Entre os 2 e os 6 anos, as relaes com os irmos constituem, mais do que em qualquer outra idade, a parte mais importante do meio social da criana. nestas idades que geralmente nasce um irmo, um momento muito importante na vida de uma criana e que altera todo o seu pequeno universo. O cime uma reaco normal ao afastamento provocado pela chegada inexplicvel de um “intruso”, pois este passar a compartilhar com a criana o amor e a ateno dos pais

A reaco da criana vai depender da sua idade aquando o nascimento do irmo;
18-24 meses – a criana tem muita dificuldade em compreender e aceitar a chegada de um irmo, pois est a viver uma fase em que descobre o medo da separao da me e, mais tarde, a crise de oposio e do negativismo sistemtico

3 anos – a adaptao tambm pode ser difcil pois pode coincidir com a entrada no jardim-de-infncia e as reaces negativas presena do irmo podem ser confundidas com a m adaptao escolar.

4-5 anos – a adaptao chegada de um irmo mais fcil pois a criana compreende o que se est a passar sua volta e j capaz de tomar conta de si

> 6 anos – a chegada de um irmo habitualmente encarada de forma positiva, assumindo mesmo o papel de irmo mais velho

O modo como a criana manifesta e exterioriza o cime muito varivel, dependendo da idade da criana e das reaces dos pais. O comportamento regressivo a forma mais comum e caracteriza-se pela retoma de comportamentos que j tinham sido abandonados, como a regresso na linguagem, voltar a querer o bibero/chupeta, enurese nocturna, entre outras. No entanto, a exigncia constante de ateno, ou pelo contrrio, mau comportamento sistemtico para chamar a si as atenes, pode ser um modo de manifestao

A criana pode at ter atitudes de hostilidade dirigidas ao irmo ou me. Uma outra forma de reagir a ateno e preocupao constantes com o irmo, rodeando a me e o beb de cuidados excessivos, com o desejo de agradar e recuperar o “amor perdido” da me. nesta altura que a criana se questiona constantemente sobre: “Se os meus pais me amam, porque querem outro filho?”, “Vou continuar a ser admirado?”, “Ser que vo continuar a gostar de mim?”.

O cime revela-se do irmo mais velho pelo mais novo, pois o irmo mais velho o nico que conheceu uma realidade em que o irmo no estava presente e tem a perder com a sua chegada. O mais novo sempre viveu na presena do mais velho e geralmente tem sentimentos positivos tendo-o como objecto de imitao e mentalmente identificando-se com ele.

Tal no se passa com gmeos, pois como nasceram ao mesmo tempo, no conhecem a vida um sem o outro. Habitualmente tm o mesmo desenvolvimento, no apresentando diferenas significativas ao nvel da fora fsica, mental ou experincia adquirida. Nesta situao em particular, em regra, o cime no existe pois os pais geralmente adoptam um comportamento semelhante para os dois.

A atitude dos pais determinante, pois o modo como tratam cada filho poder estar na origem das relaes conflituosas – a base de toda esta rivalidade/hostilidade assenta no desejo de a criana ter o amor dos pais
medida que o tempo vai passando e o irmo mais novo cresce, o mais velho assume o papel de “irmo mais velho”. nesta altura que a atitude dos pais fundamental, pois, se demonstrarem compreenso e atitudes positivas, a criana supera o cime inicial, caso contrrio, pode gerar-se um ciclo vicioso e “traumatizante” para a criana

Para se estabelecerem relaes adequadas entre irmos e para prevenir o cime entre eles, h algumas recomendaes a ter em conta:

1) A criana deve contar com mais do que um adulto para lhe proporcionar a segurana e ateno desejveis (me e pai), de forma a tornar-se mais fcil superar o cime e no se sentir abandonada com a chegada do irmo

2) Deve evitar-se que o nascimento de um irmo coincida com outras mudanas importantes na vida da criana (por exemplo, a entrada no infantrio). Aps o nascimento do beb, no se deve reduzir a quantidade, nem a qualidade da ateno, que a me e o pai dispensam criana mais velha, tentando manter a rotina anterior ao nascimento do irmo

3) Ajudar o irmo mais velho a assumir o novo papel, ressalvando a sua importncia, e prevenindo o cime que aparece com frequncia quando a me ou o pai esto absorvidos no cuidado do beb. Convm estimular a sua participao nesses cuidados, de forma que o filho se sinta importante e prestvel.

4) Evitar comparaes, bem como a distribuio de papis entre irmos. Os pais devem colocar em evidncia os progressos de cada criana e as suas qualidades em diferentes reas, sobretudo nas actividades que constituem as suas especializaes, e sempre tomando a prpria criana como referncia. Pretende-se com isto valorizar o seu progresso em determinada situao, aumentando a sua auto-estima

O amor de uma criana pelos seus pais extremamente intenso e incondicional, portanto, h o desejo da exclusividade. O sentimento de cime deve ser encarado de forma natural. prprio do ser humano… Se os pais fizerem um esforo contnuo para ajudar os seus filhos nas suas angstias, as crianas tero oportunidade de aprender, a cada dia, a adaptar-se s novidades e a abrir mo do egocentrismo prprio da primeira infncia

muito importante que os pais estejam em sintonia com os sentimentos das crianas e as ajudar a manifestar-se.

Sandra Costa, com a colaborao de Iris Maia, Pediatra do Hospital de So Marcos de Braga